O Texto em "A História de Nós Dois"

O Texto 

por AnaLu Pama

 

 

 

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A autora Licia Manzo se vale tanto da dramaturgia quanto da narrativa para contar a trajetória do casal que está se separando. Em determinados momentos nós assistimos ao drama e em outros escutamos um relato. A utilização destes dois recursos cria uma cena descontínua, onde passado e presente acontecem lado a lado.

Aqui vale entendermos um pouco mais do que define cada um destes gêneros. O Drama surge no teatro Grego como um estilo literário escrito em forma de diálogos, passível de encenação ou não, seu tempo é o gerúndio, ou seja, a ação está acontecendo no momento em que nos é apresentada. O Narrativo narra um fato, uma história, nela há um narrador (no caso da peça temos as personagens narrando). A narrativa tem como pressuposto o fato de que o narrador conhece a história toda, o tempo em que narra é o pretérito, pois ele já sabe o que aconteceu.

Assim, o que vemos nesta peça é que as personagens se encontram em dois tempos distintos: 1. Dramático: o tempo em que estão vivendo os fatos (quando se encontram pela primeira vez, quando arrumam os objetos da separação, quando se reencontram para uma possível retomada do relacionamento, para citar alguns exemplos); 2. Narrativo: o tempo em que nos contam o que já aconteceu (quando ele volta de um suposto passeio que fez com o filhinho do casal, quando ela nos conta das duas mulheres que existem dentro de si: a mãe e a esposa, e o conflito entre elas).

O texto é ágil e trata de forma clara e engraçada a questão. É com perspicácia que a autora constrói diálogos simples, que revelam os momentos de paixão, insatisfação, dúvidas pelos quais todo casal passa quando vive junto. Podemos perceber que é um casal de classe média, carioca, dos seus trinta e poucos anos, vivendo seu primeiro casamento. O tema e a maneira como é abordado geram um processo de identificação imediato, perceptível nas gargalhadas que o público não consegue conter.   

As réplicas dinâmicas revelam comportamentos que definem homens e mulheres quando dentro de uma relação amorosa, ou seja, todos nós conhecemos as situações apresentadas. E aqui vale a generalização sim: “Todo mundo é parecido quando sente dor”, já dizia Frejat! E nas questões de amor, parece que também há comportamentos que se repetem. Falo aqui de tendências!  E sem falar na questão da maternidade: quando nasce o filho a mulher vira mãe e nem sempre o homem vira pai. Pois bem, o texto fica neste senso comum, mas sem ser raso ou vulgar. Ele realmente se inscreve no mundo psicológico e social em que vivemos.

Agora vamos expandir um pouco mais a noção de texto: aquele escrito pela autora no silêncio de sua casa, na solitude de seu computador, sem dúvida nenhuma ganhou novas dimensões, ou melhor, foi reescrito pelo olhar do diretor, que interveio com elementos não verbais para contar visualmente a história. Ele encena, ou seja, coloca na cena elementos que extrai do texto, tratando-o de forma plástica e musical.   

Já no tocante aos atores, temos a sensação de que eles não poderiam dizer outras palavras além das que dizem, como se eles mesmos as tivessem escrito. Isso denota que a cena não está restrita à mera repetição das falas, mas que, de alguma forma, elas foi reescritas na interpretação de Alexandra Richter e Bruno Garcia. Certamente, através de gestos e expressões eles revelam propriedades do texto que sua leitura não nos revelaria. O texto pode ser ouvido e visto e, talvez, justamente por isso, a plateia embarca sem qualquer entrave nesta comédia dirigida por Ernesto Piccolo.