O ATOR EM BRECHT

Introdução
Bertolt Brecht ainda hoje provoca polêmica, talvez, em geral, as pessoas conheçam muito de sua imagem política e pouco do seu pensar teatral, com o qual elaborou técnicas para comunicar suas peças.
Brecht foi dramaturgo, diretor, teórico, poeta, enfim, ocupou a cena teatral por diversos ângulos e nos deixou um legado que pode ser reinventado ad infinitum.
Contudo, não podemos esquecer que ele viveu em um dos períodos mais dolorosos da história humana: as duas grandes guerras! Assim, fica evidente que sua obra abarca o homem em sua situação mais limite, ou seja, diante da calamidade material, da violência e da perda de pessoas que lhes eram caras. Assim, não lhe restava muita escolha senão a de pensar numa cena política e social, mas com um primor artístico invejável.
Brecht queria transformar o homem! Queria que ele não sentisse que sua condição momentânea fosse encarada como um fardo a ser carregado para sempre. Queria que, ao sair do teatro, o cidadão se sentisse capaz de ser um agente social e político na implantação de novas maneiras de ser e estar no mundo.
Ele foi tão especial que solicitou às gerações futuras que não montassem seu trabalho segundo seu próprio ponto de vista, mas sugeriu que atualizássemos seu trabalho, que o adaptássemos às circunstâncias culturais de cada época. Este desapego e ao mesmo tempo desejo de perpetuar-se compõem a fabulosa passagem deste artista pelos palcos.
 
O Público
Imagine o cidadão comum que vivia na Europa durante os anos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, um sujeito provavelmente atônito diante da crueldade; talvez embrutecido por não poder viver seus afetos, já que a palavra de ordem era apenas sobreviver. Como sacudir os ânimos deste cidadão para que a vida pudesse ainda ter algum sentido?
Foi disso que Bertolt se ocupou: criar mecanismos para retirar este indivíduo de seu estado letárgico e fazê-lo crer que poderia escolher que caminho trilhar com seus próprios pés. Que sua postura no mundo poderia e deveria fazer a diferença na construção de uma sociedade que levasse em consideração a importância da vida e os valores nobres do coração.
Queria que para sempre o indivíduo que assistisse suas peças se tornasse um ator – aquele que age – e nunca mais fosse uma marionete nas mãos de um poder inescrupuloso.
Para atingir tal objetivo, Brecht se debruçou no estudo de uma estética que tornasse este anseio possível, estruturando o teatro épico e o teatro didático e introduzindo o conceito de estranhamento (ou distanciamento). Vamos aqui analisar cada um destes preceitos. 
 
O Teatro Épico
Para entender o Épico precisamos lembrar dos princípios do Teatro Dramático estruturados na Grécia Antiga. Antes de tudo é bom lembrar que dramaturgia é um estilo literário que se estrutura em diálogos.
Aristóteles preconizava que a peça teatral deveria seguir três unidades: de tempo (a ação deveria acontecer em um único dia); de lugar (a ação deveria acontecer em um único lugar e normalmente numa praça, em frente ao palácio, ou seja, externamente); de ação (a história de uma personagem conduziria todo o drama). Portanto, no teatro dramático as personagens vivem suas histórias no tempo em que a cena se desenrola e toda a história é contada através dos diálogos que travam entre si.
Contudo, Brecht considerava que esta forma de encenação não comportava tudo aquilo que ele queria apresentar. Ele cria uma cena que mistura o dramático e o épico ao mexer nos seguintes elementos:
O Narrador: vai contar ao público coisas que estão além do tempo gerúndio do Teatro Dramático. Este narrador é tanto uma pessoa, como o próprio palco que vai narrar a cena através de mecanismos criados por Brecht. O narrador tudo sabe. Ele não está dentro da história, por isso seu ponto de vista é mais amplo. Além disso, ele não tem envolvimento emocional com os fatos apresentados, o que lhe dá objetividade de interpretação ou condução do olhar do espectador.
Assim, narrando, podemos conhecer outras facetas das personagens ou das situações, podemos conhecer aquilo que antecede ou se sucede na história que está sendo contada; podemos conhecer o que pensa e sente a personagem sem que aquilo esteja sendo dito no diálogo com outra personagem, é o chamado diálogo interindividual (personagem falando com ela mesma).
Daqui concluímos que dois tempos simultâneos acontecem nas cenas brechtianas: o tempo dos diálogos em que a cena acontece e o tempo global que anuncia tudo o que o narrador sabe.
De inédito temos a coexistência de personagem e ator: a personagem que vive seu drama e que fala de seu drama e o ator se refere à personagem na própria cena.
Há uma quebra no desenvolvimento do enredo. Isso exige um trabalho dobrado do ator que precisará caracterizar com bastante precisão sua personagem, a fim de sair e entrar nela diante do público. 
Cartazes e projeções também assumem a função de narrar o palco.
Lembremos aqui que é o início da Sétima Arte e o fascínio da imagem em movimento e sua justaposição na tridimensionalidade da cena teatral, permitem o surgimento de um novo teatro, um teatro que dialoga com um elemento a ele estranho.
O espaço e o tempo: as cenas são episódicas, não seguem uma estrutura linear de início, meio e fim. São mosaicos que vão se configurando aos olhos e à mente do espectador, pois é preciso quebrar o encadeamento causal das ações, pois que a vida já tão tem uma lógica tão primária.
 
O Teatro Didático
O Teatro Épico é a maneira pela qual Brecht amplia o mundo cênico, mas é também a possibilidade de atender ao intuito didático de esclarecer o público a respeito da sociedade em que está inserido e a necessidade de transformar a si e a ela mesma.
O objetivo do teatro didático é eliminar o transe hipnótico que o público normalmente vive no teatro. Este transe e identificação absolutos faz com que a pessoa expurgue seus sentimentos negativos (catarse) e saia do teatro aliviado e leve, com a sensação de que tudo foi resolvido. Pacificado, satisfeito e conformado, este individuo perde sua capacidade de ter ideias “rebeldes”.
E Brecht crê que um fator fundamental para manter este status é o encadeamento causal da cena, assim, o teatro épico episódico melhor atende sua necessidade de ensinar algo. Era preciso romper com a ideia de que o destino dos homens estava escrito nas estrelas, sendo imutável. Ele queria infundir a certeza de que as desgraças são históricas, que existam devido às condições culturais que se vivia, sendo, assim, passiveis de transformação.
 
O Distanciamento ou Estanhamento
Todos estes objetivos poderiam ser atingidos se alguns elementos cênicos sofressem uma interferência na maneira habitual de se apresentar ao público. O escuro da plateia permitia um abandona-se à cena. Os diálogos davam a impressão de que de fato tudo estava acontecendo e sendo resolvido na própria cena. A fala falada era comum aos ouvidos. Então, era hora de mexer nestes elementos. Provocar uma estranheza, fazer com que aquilo habitual se tornasse estranho, grotesco, passível de riso.
Assim, os atores não falam apenas seus textos, cantam. Ao cantar uma história o público é forçado a se lembrar que estão no teatro.
O ator para de viver a personagem e fala diretamente ao público, dando seu ponto de vista, fazendo uma interferência pessoal na cena, no texto, nas relações. Diante deste fato o público estranha e para de identificar-se reencontra sua capacidade de raciocinar sobre aquilo que vê e ouve.
O ator em Brecht