Entrevista com Vinicius Baião da Cia Cerne em cartaz no Café Pequeno

AnaLu: Cheguei para o Festival de Curitiba de 2016 e tive mais desagrados com o que vi da FRINGE do que prazer. Contudo, como o teatro está na categoria das coisas mágicas desta vida, aquilo que vi de bom apagou as experiências lamentáveis pelas quais passei. E foi realmente um prazer e uma surpresa descobrir lá em outro Estado uma Cia do Rio de Janeiro: Cia Cerne! Da qual assisti dois espetáculos fortes que me comoveram. Vamos conversar agora com seu diretor e autor, falar destes trabalhos e da temporada que farão agora no Glauce Rocha, Vinicius Baião.

 
Oi Vinícius, quero te agradecer esta parceria aqui com o SobreTeatros.  Vamos falar um pouquinho da Cia? Quando ela surge, de que forma e por quê?
 
Vinicius: A Cia. Cerne surgiu em 2013. Eu já havia trabalhado em outros grupos como ator e também como diretor porém eu sentia necessidade de contar as histórias que se faziam urgentes em mim. Daí, convidei o Leandro Fazolla (ator e produtor da Cerne), com quem já havia trabalhado e juntos fundamos a companhia. Queremos investigar e criar uma linguagem própria para a companhia, abordando temáticas sociais e flertando com questões relativas à teologia e às artes plásticas.
 
AnaLu: Vejo que na década de 80 as cias teatrais voltaram a se consolidar no Brasil, depois de alguns anos em que os grupos eram tratados com maus olhos, agora já estamos em outro século e esta tendência ganhou força. Quais as vantagens e desvantagens de trabalhar sempre com as mesmas pessoas? Há liderança na Cerne ou todos têm o mesmo peso nas decisões?
 
Vinicius: A Cerne tem um processo de trabalho altamente colaborativo. As duas montagens do grupo começaram, por exemplo, sem um texto definido. Eu sabia a história que queria contar mas não sabia como contá-la, fomos descobrindo juntos durante os ensaios. Nós temos só três anos de existência, acabamos de estrear nosso segundo trabalho, “Joio”, ainda é cedo pra enumerar vantagens e desvantagens de se trabalhar com as mesmas pessoas. Ainda estamos nos conhecendo artisticamente. Apesar de todos nós, integrantes da Cia, conversarmos muito sobre todos os assuntos, há uma hierarquia sim. Em relação à direção artística de nossos trabalhos a palavra final é sempre minha, enquanto o Fazolla tem a palavra final sobre tudo que envolve a produção.
 
AnaLu: Como vocês têm conseguido dinheiro para manter a pesquisa e o trabalho?
 
Vinicius: Conseguir dinheiro é sempre a principal luta de todo grupo iniciante. Quando surgimos, nós éramos nossos próprios investidores. Continuamos sem patrocínio fixo, temos alguns apoiadores no que diz respeito aos materiais que utilizamos. O caixa do grupo vem das apresentações que fazemos: bilheteria, apresentações vendidas e premiações.
 
AnaLu: Qual sua formação? Quem te inspira em teatro?
 
Vinicius: Sou graduado em Letras e tenho uma pós-graduação em produção cultural. Fiz diversos cursos livres em teatro mas me profissionalizei nesta área por trabalhos realizados. Todos os grandes mestres do teatro político e social, como, por exemplo, Brecht, Piscator, Boal, Vianinha, me inspiram de alguma forma. Atualmente admiro muito o trabalho realizado por Luiz Fernando Lobo, à frente da Cia. Ensaio Aberto.
 
AnaLu: Vamos falar de Joio, o primeiro espetáculo que vi de vocês e que me impactou tanto no tema como na forma de tratá-lo. Seguindo mais uma tendência do teatro do século passado vocês optam pelo palco vazio para contar a história, mas ainda assim, a ação não se perde. Fala das escadas em cena.
 
Vinicius: As escadas funcionam como um elemento potencializador das ações cênicas. Em Joio não há uma sequência cronológica linear e as escadas, além de se “transformarem” em outros objetos, cumprem o papel de ambientar cada momento, auxiliando o espectador na compreensão das mudanças espaciais e temporais. Gosto de trabalhar com objetos disparadores na minha criação cênica. Trouxe diferentes elementos disparadores para os ensaios, num constante processo de pesquisa. Quando as escadas surgiram, inicialmente como elemento simbólico, percebi sua potência para esta história e optei por assumi-las como principal norteador dessa criação espacial.
 
AnaLu: Joio conta a história de uma mãe drogada que oferece uma das filhas para pagar sua dívida com os traficantes. Ouvi você conversando que a história aconteceu de fato com uma amiga sua. Quando ela assistiu a peça, como foi?
 
Vinicius: Não gosto da palavra “drogada”. Prefiro usar “dependente química”. Pode parecer pouca coisa, mas há uma grande diferença entre esses dois termos e essa diferença norteou muita coisa em nossa pesquisa. A história que deu o pontapé inicial para a dramaturgia ocorreu com uma ex-aluna de uma das escolas onde trabalho. Não é a história dela que está no palco. A história real serviu de inspiração para uma dramaturgia ficcional. Ela não assistiu ao espetáculo, porém, infelizmente, histórias que se assemelham à dela são mais comuns que imaginamos e outras “Jéssicas”, também vítimas de violências várias, já assistiram e, por vezes, se sentiram confortáveis em partilhá-las conosco ao fim das apresentações. Apesar da dor que sentem, a maioria crê que é preciso contar essas histórias que muitas vezes ficam aprisionadas unicamente dentro de seus choros, gritos, pesadelos e traumas. 
 
AnaLu: Na sinopse de divulgação você diz que há muitas tragédias urbanas que raramente são conhecidas. De que forma o teatro, o seu teatro, tem conseguido não apenas denunciar estas realidades, mas a conduzir para caminhos outros esta mesma sociedade que vive e pratica atos tão sórdidos como este?
 
Vinicius: Como já disse, nossa ideia não é, de forma alguma, apresentar caminhos ou defender este ou aquele pensamento de maneira panfletária. Queremos fomentar a discussão. Nesse sentido, houve um caso curioso mês passado durante o festival de Ubá: duas atrizes, ambas militantes feministas, assistiram juntas ao espetáculo e tiveram leituras completamente diferentes. Isso gerou discussões acaloradas, e aí com a participação de mais e mais pessoas, sobre a pertinência de se montar essa história no atual momento sócio-político do país. Alguém chegou a dizer que era um desserviço à sociedade. No fim, outra pessoa falou “a gente está há horas falando de sociedade patriarcal, feminismo, exploração sexual infantil, entre outros assuntos, por causa de Joio. Acho que o grupo cumpriu seu objetivo de promover o debate”.
 
AnaLu: Seus atores fazem diversos personagens em cena, como você molda cada um deles?
 
Vinicius: O mais importante é que saibam diferenciar e controlar o que é cada personagem e o que é o ator. Este é o primeiro e principal ponto. Depois buscamos fugir de caricaturas e começamos a compor partituras corporais e vocais. O nosso preparador corporal, Marcio Paulo Vasconcellos, é de extrema importância na definição de movimentos e gestuais.
 
AnaLu: A que técnicas recorreu para dirigir os atores?
 
Vinicius: Não saberia elencar aqui que técnicas utilizamos. Bebericamos em muitas fontes. O que posso destacar, em Joio, é uma pesquisa sobre Teatro Épico como forma de enriquecer as transições entre as ações cênicas e as narrações.
 
AnaLu: Eu quero que você fale sobre a emoção, sobre os sentimentos que surgem durante o processo, de como sustentar uma atmosfera atingida e de como dar o passo seguinte que é tocar na emoção de quem assisti.
 
Vinicius: Eu costumo trabalhar a gênese de cada personagem, de cada cena.  Como não partimos de uma dramaturgia pronta, experimentamos muito em nosso processo. Tudo que se torna cena já foi vivido e discutido inúmeras vezes durante os ensaios. Isso dá aos atores um pertencimento muito grande não apenas de seus personagens mas de toda a narrativa. Os ensaios são intensos, o elenco experimenta, durante as provocações que levo, uma infinidade de sentimentos com seus personagens que podem estar ou não nas cenas que vão ao palco. Acredito ser preciso que eles conheçam a fundo quem interpretam para poderem ter domínio sobre os personagens e com isso causar no público algum tipo de emoção. Para isso, os tempos cênicos são de suma importância. Não adianta apenas o ator estar completamente preenchido de emoção, ele precisa saber controlar o tempo de cada uma de suas ações para que o seu estado afetado não prejudique a encenação e a recepção do público. Pelo contrário, é preciso encontrar o ponto exato onde sua carga emotiva atinja o espectador. É dificílimo e nem sempre alcançamos em completude. Por isso a necessidade de trabalho e investigação contínua.
 
AnaLu: Vamos para o “Ainda Aqui”! Este espetáculo também vem de uma história de alguém que você conhece?
 
Vinicius: Não necessariamente. É uma história de uma família que tem seu único filho preso, torturado e morto político pelas mãos de um regime repressor. Infelizmente, isso ocorre diariamente há séculos em vários cantos do mundo, seja numa ditadura longínqua e sanguinária ou com a PM numa favela carioca.
 
AnaLu: Por que você fez o espetáculo com apenas dois atores? No final do espetáculo é visível o cansaço deles e isso me fez lembrar que no Japão há uma saudação aos atores, que fala do quanto o público percebe o cansaço dos atores e a eles agradece por isso. Como eles se refazem?
 
Vinicius: Ainda Aqui tem como grande protagonista o ofício do ator. Há realmente muita entrega dos meninos, que interpretam mais de uma dezena de personagens, sem qualquer troca de figurino, adereço ou qualquer outro elemento cênico que pudesse se tornar uma muleta de fácil identificação para o público. São dois atores, algumas correntes, um pneu e uma história. É um minucioso trabalho de interpretação. Não indicamos qualquer referência de tempo, nem de espaço. Também não se trata de uma narrativa linear. Com apenas dois atores, as peças do quebra cabeça vão se apresentando gradativamente ao público que vai preenchendo as lacunas também de forma gradativa, até que a imagem completa se apresente no final do espetáculo. Não saberia dizer exatamente como eles se refazem, mas há um cuidado por parte deles e um trabalho constante de adaptação do corpo a essa carga física e emocional.
 
AnaLu: Neste momento onde uma vez mais estamos politicamente nas mãos de pessoas incompetentes – assim como foi na ditadura militar – que impacto tem este espetáculo para quem o assiste?
 
Vinicius:  Ainda Aqui, entre outros assuntos, aborda o mal de Alzheimer e as violências praticadas por um Estado de exceção. Acredito que, neste momento histórico em que vivemos, o espetáculo ajuda a combater uma espécie de Alzheimer social. Há pessoas em nosso país, ou por desinformação ou por mau caratismo golpista mesmo, que pedem intervenção militar. Neste sentido, Ainda Aqui nos ajuda a lembrar o que houve para que nunca mais se repita. Ainda Aqui foi escrito em 2013, de alguma forma inconsciente, deve haver na dramaturgia ecos das jornadas de junho, quando já se ensaiava um coro por intervenção militar. Hoje, acredito que Ainda Aqui reforça a importância de respeitarmos o voto, a democracia, as instituições democráticas e o Estado de Direito.
 
AnaLu: Jovens tem assistido o trabalho de vocês? Há debates?
 
Vinicius: Sim. Já apresentamos para diversos grupos de estudantes. Os debates são fantásticos. Os pontos de vistas que eles trazem sobre nossa obra enriquece bastante nosso trabalho e nossa própria percepção sobre o que fazemos.
 
AnaLu: Você faz um teatro de denúncias, mas sem ser panfletário, que medida é esta que usa?
 
Vinicius: Falamos de vidas humanas e não de ideologias. Falamos de gente e não de momentos históricos. O que prevalece em nosso trabalho é a relação entre as pessoas e como estas são afetadas por ideologias e momentos históricos. Nunca o contrário.
 
AnaLu: Uma única coisa me incomodou e me incomodou bastante no seu trabalho e mais especificamente no Ainda Aqui, que foi o segundo que assisti em Curitiba: a música. Sei que você não tem a menor obrigação de justificar isso, mas quero entender o porque desta escolha, embora, eu confesso, isso não vai mudar meu incômodo (hehehe)
 
Vinicius: Como você disse: são escolhas. E é realmente curiosa a forma como a música de Ainda Aqui gera controvérsias. Já ganhamos quatro prêmios de trilha sonora em festivais mas já sofremos também inúmeras críticas como essa que você faz. Eu entendo e aceito de boa. Além de todo estudo que fazemos, de toda matéria conceitual que discorremos, em arte há um fator chamado “gosto” e ele é fundamental. A música em Ainda Aqui ajuda a contar a história. As letras fazem parte da dramaturgia, elas fazem a ligação entre a história da família formada por Jorginho, Maria e Maurício e a Sagrada Família.
 
AnaLu: E a Ocupação agora no Glauce Rocha? Como é conseguir entrar nas programações dos teatros?
 
Vinicius: Estamos conquistando espaços em um ritmo maior que esperávamos. Em dois anos e meio de existência temos mais de 50 premiações em festivais, tivemos duas temporadas de Ainda Aqui e pra este ano já temos mais três temporadas agendadas com nossos dois trabalhos. A Ocupação no Glauce Rocha será composta por Ainda Aqui, Joio e mais dois espetáculos de grupos convidados.
 
AnaLu: Você é um Plínio Marcos menos revoltado e menos escrachado?
 
Vinicius: Acho que não. São tempos diferentes. Falamos de temas também diferentes. O que há de comum, penso eu, é a certeza de que o teatro não deve ser apenas um local onde a pequena-burguesia divaga sobre suas dores, desejos, insatisfações e prazeres. A vida real precisa estar nos palcos.
 
AnaLu: Quer falar mais alguma coisa para os leitores do SobreTeatros?
 

Vinicius: Quero aproveitar e agradecer o convite para esta entrevista. Gostaria ainda de parabenizar pelo trabalho que SobreTeatros desenvolve. É gratificante saber que há um espaço como esse onde a matéria teatral é tão bem discutida para além dos grandes mercados e circuitos.

AnaLu: Você que está lendo esta entrevista, permita-se o contágio e dê um pulo lá No Glauce. E depois me conta.

 

Cia Cerne