Entrevista com a Cia Certas Palavras

AnaLu: Há seis anos comecei os cursos de leitura dramatizada e alguns fiéis escudeiros permanecem comigo até hoje alargando a experiência da voz e da expressão e me permitindo elaborar propostas cada vez mais ousadas. Da leitura dramatizada convencional carregamos poucos elementos e nossos trabalhos foram tendendo para leituras QUASE dramatizadas. Quase porque na verdade permanecemos com os textos na mão e porque não há deslocamentos espaciais. Mas no mais, temos brincado bastante, seja na composição cuidadosa de cada personagem, seja na busca da melhor expressão vocal para comunicar aquilo que a personagem quer levar ao público. No próximo dia 19 no Hospital dos Servidores do Estado apresentaremos nosso mais recente trabalho: Orquestra de Senhoritas de Jean Anouilh. E o faremos agora como uma Companhia! Cia Certas Palavras! Vamos bater um papo agora com os sete integrantes desde delicioso evento cênico.

Vamos começar por Madame, aquela que comanda a Orquestra! Sarita, eu gostaria de abordar seu trabalho na construção de Madame Hortance. Você é uma das minhas alunas mais antigas e sabe muito bem que quando começamos a elaborar uma leitura temos tendências em repetir inflexões, ou estados de alma. Sinto que a maior parte das vezes mais rapidamente expressamos a raiva do que qualquer outro sentimento. Mas no caso desta personagem, que está acima do bem e do mal, outros foram os enfoques que precisamos pesquisar. Você pode nos falar sobre isso?

Sarita: Ah AnaLu, que fantástica orquestra possível, formam juntas alma e voz humanas em todas as suas manifestações! 
 

Receber a Madame Hortense como personagem, foi um dos seus inúmeros presentes, em termos de desafio e prova de confiança. Ter que representar (ou tentar) o comportamento de alguém que está “acima do bem e do mal” ....   Ôpa! Percebi, e muito claramente, que abri mais um compartimento de minha sombra, nunca fácil de lidar, mas sempre recompensador. Ser um espelho de suas próprias reações imediatas fora de controle. Difícil sempre. Compensador?  Sim! Imagine ser autorizada a não dar a mínima para o julgamento alheio! Trabalho correto e prazer acima de tudo!  Passei a gostar do pragmatismo da personagem. São muitas as exclamações, percebo com satisfação.

AnaLu: Sarita, você já viveu Nevinha da Farsa da Boa Preguiça, já viveu Cassandra nas Troianas, já fez humor e tragédia. O que ficou de marcante no seu processo de aprimoramento vocal?

Sarita: Cassandra foi o primeiro grande susto e descoberta. Dar vazão ao desespero e à raiva. Imediatamente percebi o quanto de respiração e trabalho vocal satisfatório, seria necessário, para que houvesse um bom desempenho com o mínimo de cansaço. Foi o momento de procurar orientação profissional com Jane Celeste, que rapidamente me ensinou a respirar. Parece pouco, mas não é. Muito querida também a doce e apaixonada Nevinha. Me apresentar rota e maltrapilha, foi mais um desafio. Fui treinada para ser o mais certinha possível. Pensando bem, acho que me treinei sozinha. (risos) Comédia e drama quando expostos em público, desnudam o nosso íntimo de maneiras nunca antes percebidas.  Evidente que manifesto aqui, apenas, a minha experiência pessoal. Prefiro comédia ao drama. Embora as duas coisas mobilizem bastante. Rir de mim mesma, nem sempre é fácil. Mas é primeiro passo essencial na aceitação das dificuldades internas. Foi durante muito tempo, material rico em meu processo de análise. Estar em um grupo variado e generoso como o nosso, é solo que nutre e ampara.
         E finalizando, sei  é meio cabotino elogiar a si mesmo, mas colho sempre alguns elogios em termos de dicção e tonalidade de minha voz, embora eu mesma não goste muito de ouvi-la. Rindo sempre, é claro. Para fechar uma boa comédia. Agradecendo a todos sempre, pelo carinho e aceitação. Me desculpando também por externar qualquer comportamento menos gentil.  Coisas da Madame!   

AnaLu: Sinto-me com desejo de concluir que sim: você tem conseguido proezas vocais – emprestando a cada palavra de uma frase entonações diferentes, Persas e muitas vezes paradoxais, para a alegria de minha alma.

       Agora eu quero conversar com outra veterana, Silmar Osório que neste na leitura tem o desafio de fazer o contraponto dramático desta comédia. Silmar, você lutou muito para gostar de Suzanne, o que ela mais te incomoda?

 

Silmar: O que me incomoda é que essa personagem não pode participar muito da farra que é a Orquestra. Como você diz ela é o contraponto dramático desta comédia.

AnaLu: Como é seu processo de construção das personagens que eu te ofereci até hoje?

Silmar: Confesso que nem todas as personagens que você me ofereceu foram as que desejava, mas com cada uma tive um grande aprendizado. Procurar por elas dentro de mim, aprender com elas e passar a gostar delas. E foi assim desde a Narradora das Troianas até a Suzanne. E o mais importante para mim é ver que cada uma delas me emociona até hoje e que cada uma delas me acrescentou algo mais, não só na construção da personagem, mas em mim: aprendi a aceitar, a ter paciência e a me descobrir.

AnaLu: Outro que faz parte do grupo desde o início é Paulo Guberfain. Paulo já foi Creonte, Menelau, Odorico Paraguaçu, entre outras personagens e agora está fazendo Hermelinda.  Orquestra de Senhoritas foi escrita para que homens fizessem os papéis femininos e assim, estamos aqui seguindo o desejo de Jean e nos Pertindo muito. Quais são os maiores desafios em compor esta dama fracassada no amor?

Paulo: Compor uma personagem feminina é um desafio por si só. Compor essa personagem com sentimento de perda quase irreparável é acima de tudo uma representação do exagero desmedido. Esta mulher convive num ambiente conturbado, onde as colegas da orquestra expõem suas misérias humanas. Ela não é uma exceção, e para tanto, ela não se exclui desse universo tresloucado, onde ela própria tenta superar desvairadamente o seu drama de mulher rejeitada. É nessa falta de medida que esse desafio me é interposto.

AnaLu: O que você percebe de diferença, em termos vocais, para compor personagens femininas e masculinas.

Paulo: É interessante essa questão da voz. Na verdade, minha preocupação foi tentar introjetar a mentalidade feminina da personagem. Uma mulher perdidamente apaixonada por um homem que lhe devota um enorme desprezo. Não é fácil trabalhar com essa questão de gênero, sobretudo num estado de extremo sofrimento afetivo. Não tive pois, uma preocupação prioritária com a questão da voz, confiando em que essa tentativa de introjetar a personagem permitiria a busca de um timbre compatível. Isso não é uma convicção minha, mas uma busca que eu espero ter sido bem sucedida. (risos)

AnaLu: E agora eu quero saber da Sonia Mano (também faz parte do elenco original), que em Orquestra vive a recatada Patrícia sobre o prazer de conseguir criar uma interação tão harmônica com sua “partner” em cena.

Sonia: Já temos intimidade desde outros Carnavais... e isto ajuda bastante. Um parceiro como o Márcio Tadeu, que estuda teatro e tem um mergulho bonito no personagem ajuda muito, mais até, exige da gente mais. Com carinho, me deu "toques" importantes, que ajudaram e muito a construir a personalidade da Patrícia. Não foi fácil para mim viver este meu "lado B" e deixar sair a "narcísica" de dentro de mim, que fui criada para ser a "boazinha". Isto tem alterado a minha personalidade e não sei se para melhor... olha que estou gostando muito da liberdade que é ser a bruxa Patrícia.. (hehehe...). Viu AnaLu? Viu, turma querida? Vocês podem ter ajudado a soltar um monstrinho que eu guardava dentro de mim!! (mais risos internos!) Obrigada, Márcio, obrigada, turma! Obrigada, AninhaLu!! Mas, voltando a sua pergunta, a confiança no companheiro e o afeto que temos foi essencial. Sempre é.

AnaLu: Onde você acha que são seus pontos fortes e fracos na expressão de sua voz?

Sonia: Nossa! Eu melhorei horrores! Estou aqui novamente rindo de mim mesma ao lembrar o quanto falava baixinho, da timidez no início dos nossos trabalhos... Acho que o exercício constante de leitura nos ensaios e sua orientação foi aos poucos me fazendo "soltar" a voz. Como dou aula, sinto a enorme diferença que o domínio da própria voz tem: uma mudança de tom, uma pausa dramática, mais do que um grito, faz uma turma parar e dar atenção.. Não sei te dizer, fazer esta análise sobre o que são meus pontos fortes e fracos, não tecnicamente. Meu aprendizado foi "acontecendo", quando vi já tinha outra expressão de voz e muito mais ousadia. Mas ainda tem chão pela frente. Sempre tem.

AnaLu: Vejo mesmo esta mudança, parece que a compreensão de que fazer teatro\leitura é se propor a brincar, a jogar, fez muito sentido para você.

AnaLu: Márcio Thadeu está fazendo Pamela – e juro – ele já fez o Zeca Diabo! Temos ouvido bastante comentários sobre sua composição física de Pamela, ou seja, que você está muito feminino, não está um homem travestido de mulher. Eu mesmo vejo a delicadeza com que você conseguiu elaborar os momentos mais dolorosos da personagem, dando a ela profundidade, apesar de ela ser, aparentemente, tão leviana. O que te motivou para elaborar com tanto esmero esta personagem?

Márcio Thadeu: Quando recebi seu convite no ano passado para viver a Pamela em Orquestra de Senhoritas, me senti muito feliz e desafiado para um novo trabalho! Procurei observar mais as mulheres em seu gestual e comportamento e com isso poder "rechear" melhor minha personagem! Não desejava fazer uma caricatura de mulher, e sim expor o lado feminino que todo homem tem - e deveria explorar melhor! Esse esmero é uma homenagem ao Teatro e às Mulheres, que formam o verdadeiro Sexo Forte!!! Espero que curtam a Pamela ao vivo em suas apresentações!!!

AnaLu: Você está usando um modelito de Marilyn Monroe, feito por nada mais nada menos do que Sarita. Quais os desafios de usar este figurino?

Márcio Thadeu:  O figurino by Sarita Bayer Pradez está um luxo só!!! Valeu Sarita (Madame Hortence)!!! A referência à Marylin Monroe foi acertada em seu vínculo com o lado sensual e livre de Pamela! Estou curtindo minhas costas nuas e meu decote mega sexy!!!  (rs) Pamela está empoderada !

AnaLu: Luís Fernando Osório está fazendo Leona, que serve de ponte para Hermelinda. Você acabou tendo poucos elementos para se agarrar na construção desta personagem, já que ela pouco fala de si. Entretanto, é perceptível sua paixão por ela. O que te agrada tanto?

Luís: O universo feminino. A caracterização feminina faz com que você tenha oportunidade de focar melhor a sua personagem.  Embora eu não me sinta muito mulher.

AnaLu: Em nosso trabalho cuidamos da construção das personagens, da expressão vocal dos seus sentimentos, da interação com as outras personagens e com o ritmo da cena. Qual destes elementos é o mais complexo para você?

Luís: Tudo é difícil, mas o mais complexo é a construção das personagens e da expressão vocal.

AnaLu: Agora vamos falar com o mais novo integrante do grupo: Márcio Klang. Márcio, o que você está achando de tudo isso? Como está sendo construir uma personagem pela primeira vez? Você e Leon são absolutamente diferentes, você é um homem forte, decidido e Leon é um “mosca morta”. O que fica para você desta aproximação? Márcio Klang: Bem, a minha personalidade de fato tem a preponderância de um homem de decisão, com o temperamento forte. Porém também posso ser frágil e inseguro. Em questões do coração sempre temos as nossas fraquezas e inseguranças. Foi bom explorar este meu lado. AnaLu: Você se Perte muito nos ensaios. O que o grupo tem representado para você? Márcio Klang: Muita alegria, muita risada, uma convivência feliz que quebra o mundo pesado e hostil de hoje em dia. O grupo é ótimo e transparente!

AnaLu: Alguém da Cia Certas Palavras quer fazer alguma pergunta para algum dos componentes?

Paulo entrevista AnaLu: Minha pergunta é para AnaLu, nossa diretora: Como é que você encara o trabalho do nosso grupo, considerando utilizar a leitura dramatizada como proposta dramática acabada, em contraposição à sua utilização mais corriqueira como método preliminar de um texto a ser estudado para uma futura encenação?

AnaLu: São coisas muito distintas. O processo vocal tem suas exigências e a montagem outras mais complexas ainda. Preciso confessar que fico tentada em encenar algumas das leituras, não porque falte algo, mas porque a brincadeira é gostosa demais. Percebo ainda que tenho os grupos de teatro e os de leitura e respeito a escolha de cada um, pois também ela é a minha. Acho tão importante o que fazemos que minha ideia é levar cada vez mais e mais para Persos públicos, mas quero ainda filmar, oferecer para escolas, passar na televisão, em rádio, enfim, criar um novo espaço que privilegie a voz e a leitura – com características dramáticas.

Sonia Mano entrevista AnaLu: AnaLu, como você aguenta a gente? Somos indisciplinados, bagunceiros e, às vezes, complicamos as coisas ... rsrs... você acha que você "ganha pouco mas se Perte"?

AnaLu: Vocês são meus amigos! Aprendi com vocês a elaborar as aulas que ministro. As indagações, os questionamentos, as sugestões são a base do material teórico que ainda quero publicar sobre a voz, a construção de personagens, ritmo, interação. Vocês me fizeram, da mesma forma que eu a vocês. Sim, mas acho que mereço um salário global!

Sonia: Uma das coisas mais importantes na prática de um professor é - mantendo o equilíbrio do grupo - estimular inPidualmente cada aluno. Eu vejo este aprofundamento da leitura dramatizada que você criou, introduzindo a caracterização dos personagens e a interação da ação na leitura entre todos, como surgindo exatamente como parte do seu processo de dar "asas" aos seus alunos... E você? Como acha que esta nova forma de leitura que você criou surgiu?

AnaLu: Sinto que foi uma solicitação paulatina do grupo, aos poucos vocês queriam brincar de representar, solicitavam um movimento, ansiavam para compor esteticamente aquilo que até então estava sendo colocado apenas na expressão vocal. Eu atendi esta necessidade de entrar mais e mais no lúdico dos textos. Mas isso foi possível porque o grupo tanto se sustenta emocionalmente como tem uma capacidade criativa muito grande. Vocês querem estar juntos. Vocês querem se lançar no abismo e descobrir o novo. Eu pego o fósforo e vocês se encarregam do incêndio. Percebi algumas vezes algumas pessoas dizerem: mas isso não é leitura dramatizada e eu me irritava com isso. Hoje não, fico feliz, não é mesmo é Quase!

Em breve, artigos sobre o trabalho do ator do Mestre e professor da Universidade do Ceará Tiago Fortes

CIA Certas Palavras