Entrevista com ROBERTO ALVIM diretor de Caesar - Como Construir Um Império

Entrevista com o Diretor e Dramaturgo ROBERTO ALVIM
 
 
 
 
 
AnaLu: Olá Roberto Alvim, muito obrigada por aceitar este bate papo aqui no SobreTeatros, um blog que quer ouvir os detalhes, as entranhas do complexo processo teatral das montagens em cartaz no Rio de Janeiro! E também divulgá-los para aqueles que fazem do teatro a sua casa, a sua forma de pensar e interagir com o mundo. Vamos falar de como você construiu um império sobre um quadrado de moedas no espetáculo Caeser, que estava em cartaz no SESC Copacabana. Primeiro por que Shakespeare com suas falas imensas, não importando o tempo usado para expressar ideias e exprimir sentimentos, pois  que vivemos na era das abreviações nas mídias sociais?
 
Roberto: São instâncias completamente distintas, que demandam ferramentas e operações distintas: as mídias sociais visam facilitar a comunicação; já a poesia age ampliando o nosso imaginário. Não se deve ir ao teatro esperando encontrar a mesma lógica banalmente limitada da vida cotidiana.
 
 
AnaLu: Você não teve receio de ir na contracorrente contemporânea que privilegia o teatro de ações físicas ao invés de um teatro textocêntrico? Quais os desafios desta escolha?
 
Roberto: Não existem tendências em arte. O que existe é o trabalho singular de cada criador. Minha obra sempre foi criada a partir da percepção de que nós somos estruturados linguisticamente. Neste sentido, a palavra (e sua ativação pela voz humana) sempre ocupou um lugar central em meu trabalho. Mas devo apontar que não se trata de “textocentrismo”; trata-se, sim, de uma visão acerca da humanidade, que se traduz cenicamente através de operações formais específicas. No meu caso, como percebo o homem como linguagem, este posicionamento existencial se desdobra inevitavelmente em operações radicalmente ligadas à fala.
 
 
AnaLu: Na sobre-humana tarefa de reduzir para dois atores e cinco personagens (estou correta neste número: Cesar, Brutos, Marco Antônio, Caio e o cego?), sem utilizar o recurso da narração, mas permanecendo na estrutura dramática, quais os fios condutores para efetuar esta escolha?
 
Roberto: Primeiro, tratou-se de perceber quais eram as perguntas centrais do texto. Depois, o que procurei fazer foram estas mesmas perguntas formuladas por Shakespeare em seu tempo – mas fazê-las aqui, agora, o que implicava em uma síntese textual.
 
 
AnaLu: Uma vez reescrito o texto, quando as palavras ficam ecoando dentro da cabeça de quem o adapta e cria uma nova dramaturgia, como se dá o fenômeno de ouvi-las em bocas outras? Quais os ajustes para efetuar a aproximação entre este eco e a realidade de outras vozes e quais os itens que você integrou, modificando esta imagem interior primeira?
 
Roberto: No início dos ensaios, peço que os atores apenas digam aquelas palavras. Então, todos nos deixamos afetar sensivelmente por elas, e as formas de cada textura vocal vão se desenhando. Não parto, portanto, de uma imagem pré-concebida acerca do modo de dizer o texto; são os ensaios que determinam os rumos formais da obra.
 
 
AnaLu: Eu li que você escolheu este texto a partir de um debate político que assistiu para as eleições no Brasil. O que sempre vemos na política e mesmo no cotidiano é a manipulação a adequação das palavras - com distorção dos fatos - para atenderem a propósitos pessoais. Ao longo da história humana é assim que funciona. Você é um utopista? Acredita que em algum momento o homem falará com o coração? Acredita que outro padrão de comportamento é possível para a nossa raça?
 
Roberto: Sempre que falamos, estamos produzindo e manipulando afetos, visando criar no outro uma determinada imagem de nós mesmos. O importante é que, ao menos, percebamos que operamos desta maneira. A partir daí, talvez possamos vir a agir de outro modo...
 
 
AnaLu: Sua montagem cria dois espaços: o da cena propriamente dita e o espaço sonoro do piano por Mariana Carvalho. Estes espaços em alguns momentos se fundem, em outros momentos tive a percepção de que eram distintos. No que ganha e perde a cena com estas duas ambientações? O que você quis nos dizer com este diálogo sonoro?
 
Roberto: Quis criar uma espécie de ópera minimal para duas vozes e piano, visando explorar as relações de potencialização mútua que poderiam se estabelecer neste diálogo.
 
 
AnaLu: Imagino que as discussões com o filósofo Vladimir Safatle que compôs a trilha sonora tenham sido de uma riqueza ímpar. Como foi este processo? O que ele alterou seu olhar, o que ele reforçou suas concepções?
 
Roberto: Quando o Safatle leu minha adaptação e demonstrou seu interesse em trabalhar comigo no espetáculo, tive a certeza de que o texto estava sólido. Além disso, foi ele que me levou a perceber que o grande protagonista da obra não eram suas personagens, mas sim o processo histórico. Esta ideia teve reverberações inequívocas na encenação.
 
 
AnaLu: Teatrum em grego significa o lugar de onde se vê. Eu gosto bastante de espetáculos que abusam do escuro, mas os atores se ressentiram de tantas invisibilidades?
 
Roberto: Todas as minhas peças trabalham com desenhos de escuridão. Trata-se de criar zonas crepusculares, nas quais as palavras funcionem como sementes lançadas no imaginário de cada membro da plateia. Trata-se de abrir a possibilidade para que cada espectador crie imagens de modo autônomo, em seu espaço mental. O palco se torna, então, uma espécie de catapulta para a imaginação das pessoas.
 
 
AnaLu: Por que a opção de usar microfones? Em diversos momentos ouvi pessoas na plateia incomodadas com o som que lhe chegava aos ouvidos, especialmente do Carmo Dalla Vecchia.
 
Roberto: Por conta da acústica do espaço SESC Copacabana. Em outros teatros isso não foi necessário, mas lá seria impossível (devido ao modo como o piano soava naquele espaço circular) ouvir os atores sem os microfones.
AnaLu: O espetáculo foi escrito para uma semi-arena? Em São Paulo como era o espaço? O que foi necessário para realizar as adaptações espaciais?
 
Roberto: O espetáculo foi criado originalmente para palco italiano, com uma perspectiva puramente frontal. Tivemos que adaptar a peça para a semi-arena do SESC, alterando marcas para instaurar vetores em direções laterais.
 
AnaLu: O ruído provocado pelos sapatos dos atores nas moedas do tablado era uma degustação à parte na composição sonora do espetáculo. Isso me fez uma provocação: não seria rico usar um pouco mais este efeito e criar novas sonoridades? Será que não houve um sub-aproveitamento desta ideia? Ou você queria mesmo ficar focado na sonoridade textual?
 
Roberto: O ruído gerado quando os atores caminhavam sobre as moedas tinha a exata dimensão que eu queria que tivesse. Se fosse outro encenador, talvez esse efeito fosse expandido. Cada artista cria exatamente o que sua visão estética determina que ele crie. Não se pode parar diante de um quadro de Picasso e pedir que ele coloque um pouco mais de azul...
 
 
AnaLu: Quem é o público deste espetáculo? Você acha que um artista no seu processo de criação deve considerar primeiro seu target e depois investir no seu produto ou justamente o contrário?
 
Roberto: Não faço obras para o “público”, mas sim para cada uma das pessoas que se propõe a dialogar com meu trabalho. Cada pessoa é singular, e vai reagir de modos específicos e imprevisíveis. Portanto, pensar em termos de uma entidade genérica chamada “público” será sempre uma falácia inócua e uma tentativa de redução da potência de cada ser humano... Não tenho controle sobre a criação da minha obra (na medida em que um artista é movido por forças que ele não domina), então como posso querer ter controle sobre a recepção dela (na medida em que cada ser humano é distinto do outro)?
 
 
AnaLu: Qual sua formação teatral? O que você gosta de ver em teatro? Quem te influenciou? Quem ainda te faz vibrar?
 
Roberto: Comecei a dirigir teatro aos 18 anos. Estou com 42, portanto faz 24 anos que sou um encenador profissional. Me formei como ator e também em História do Teatro. Entre as influências, poderia citar mais artistas plásticos (como Mark Rothko, Cy Twombly, Barnett Newman, Willem de Kooning e Jackson Pollock), filósofos (como Deleuze, Wittgenstein e Derrida), psicanalistas (como Lacan) e poetas (como Holderlin e Robert Creeley) do que diretores de teatro, embora deva destacar o nome de Antunes Filho como um exemplo incontornável de artista de gênio.
 
 
AnaLu: O Ministério da Cultura criou o “vale cultura” e repassou para o empregador o custo deste benefício. Isso em si já me parece uma ação duvidosa. A meu ver seria mais adequado que o Ministério da Cultura (ou os empregadores como já funciona na realidade) assumissem o pagamento aos artistas para realizarem seu ofício e fornecessem ingressos gratuitos para a população sem recursos. O que você acha da política cultural do Brasil em geral e mais especificamente de São Paulo?
 
Roberto: A Lei de Fomento ao Teatro da cidade de São Paulo é um mecanismo estruturante de política pública maravilhoso, assim como os Prêmios Zé Renato e Myriam Muniz. São conquistas da classe teatral. Mas é claro que ainda há muito por ser conquistado, e todos prosseguimos lutando por isso.
 
 
AnaLu:  Quais as diferenças do mercado profissional de São Paulo comparado ao do Rio de Janeiro?
 
Roberto: Em São Paulo existe um público imenso interessado em teatro de arte. No Rio, esse público é muito menor. Por conseguinte, há um número muito maior de cias independentes em São Paulo, que possuem pequenos teatros-sede, sempre lotados, e que não fazem nenhuma concessão ao senso-comum em seus trabalhos.
 
 
AnaLu: Qual é a vida do espetáculo a partir de agora?
Roberto: Já estávamos há 9 meses em cartaz com CAESAR. Fizemos 2 temporadas em SP, e uma tournée pelo Brasil. Depois do Rio, a peça encerra sua trajetória.
 
 
AnaLu: E os próximos planos?
 
Roberto: Em 2016, vou encenar PEER GYNT de Ibsen em junho, e minha adaptação do romance LEITE DERRAMADO de Chico Buarque em setembro.
 
AnaLu: Obrigada Roberto Alvim por suas respostas e seu olhar tão singular. Estendo aqui meu agradecimento aos atores Caco Ciocler e Carmo Dalla Vecchia.