Ri Melhor Quem Ri Por Último

Introdução
O que leva uma pessoa a procurar um curso de teatro para aprender a fazer o público rir? Que disposição há na alma desta pessoa que a inclina para a diversão, para o humor irônico, para o olhar irreverente diante dos fatos da vida? Vamos descobrir.
Mas primeiro vamos pensar no seguinte: o ser humano usa muito menos músculos para sorrir do que para chorar e em épocas de crise parece que qualquer economia pode ser boa. Além disso, como já dizia Aristóteles ou Platão, mas quem deve ter dito mesmo foi Aristófanes, o grego que mais entendia de comédia: “Se o indivíduo soubesse o quanto ele fica feio chorando, evitaria ao máximo qualquer expressão desta ordem” – ou algo parecido com isso – mas a verdade é que se você se olhar no espelho quando está tendo uma emoção de tristeza, desapontamento, desespero, vai perceber que é o tipo de rosto que não vai querer que ninguém veja, pois vai queimar o seu filme.
Estas já são duas boas razões para a pessoa procurar o tal curso de teatro.
Mas quando falamos de fazer rir o que na verdade está envolvido neste processo? O que te faz rir? O que você faz para que as pessoas riam? São perguntas simples, mas que trazem em si a necessidade de um olhar mais atento e conceitos que nos ajudem a nomear os meios pelos quais o riso acontece. 
O que provoca o riso em você? É o conteúdo do que é dito ou a forma com que as coisas são ditas? Acertou quem respondeu: depende! Sim, porque tem coisas que são engraçadas no próprio texto (dito ou escrito) e outras são engraçadas pela forma que o interlocutor usa para contar. Ou pode ser ambas as coisas ao mesmo tempo!

Então a questão é: que humor você prefere? O escrachado, tipo pastelão ou pornográfico? Ou o humor britânico: sutil e cruel? Ou você gosta de rir das escatologias? Ou gosta do jeito corporal do ator que assume posturas ridículas e\ou máscaras faciais incomuns?

Na verdade, tudo isso é apenas uma forma de desmembrar o riso e nos possibilitar compreender que fazer rir é uma técnica que pode ser desenvolvida, caso não tenhamos ou achemos que não temos uma natureza cômica.
 
Perspectivas do Riso
O riso pode acontecer a partir de duas perspectivas: a semiótica e a fenomenológica. Na primeira encontramos o riso que se dá pela compreensão do significado, ele acontece dentro de uma lógica. Este significado e esta lógica são comuns ao ator e ao espectador por estarem inseridos dentro de uma mesma cultura. Na segunda perspectiva o riso não tem uma razão aparente, não está configurado dentro de um sentido, é o riso pelo riso.
 
Recursos Gerais da Comicidade
Quando compreendemos e identificamos os recursos que podemos utilizar para obter o riso do público, contamos com uma forte técnica para nos auxiliar em cena. Com certeza você já percebeu cada recurso que aqui será citado, mas agora terá um instrumento mais claro em suas mãos.
Importante ressaltar que os recursos podem ser utilizados isoladamente, mas muitas vezes o que temos é a conjunção de alguns deles. Aqui vão eles:                                        
- A Piada: está em um campo de extrema liberdade e acaba por reunir vários recursos.
 
- A Surpresa: quando acompanhamos uma narrativa cômica é com o lado racional que o fazemos e é justamente o fato de não esperarmos o desfecho que nos leva ao riso: o sentido nos faz pensar algo absolutamente inédito.  Indica-se que o ator deve falar com seriedade afim de levar o público ao desfecho sem tentar parecer engraçado.
 
- O Exagero: pode levar à gargalhada e pode ser encontrado em três formas:
1. o exagero de argumento: o que é dito excede ao razoável e ao possível;
2. o exagero da ação: os atores exageram nos movimentos, não exigindo nenhum esforço mental do espectador; 
3. o exagero da caraterização: surte efeito quando é mostrado como se fosse algo natural.
 
- O Erro: certos equívocos são muito engraçados e podemos destacar dois tipos:
1. erro do conhecimento geral: quando vemos o emprego de uma palavra ou de um conceito sendo distorcido;
2. erro relativo à língua: desvios das normas gramaticais, quando você fala errado palavras (ex: pobrema, etc).
 
- Um Elemento fora do seu contexto: comportamentos fora do contexto habitual, como hábitos de estrangeiros.
 
- A Falta de Senso: existem várias formas de manifestar a falta de senso, são elas: 
1. a esperteza: querer ser mais esperto que todos e usar argumentos descabidos;
2. a idiotice: exemplo: um maluco sugeriu a seu amigo fugir do hospício pelo buraco da fechadura, quando anoiteceu, chegaram lá e ele disse que não podiam ir porque haviam esquecido a chave na fechadura;
3. paradoxos: a volta dos que não foram, a longa cabeleira do careca;
4. incoerências  cronológicas  proposita-das: justapor épocas distintas em um mesmo diálogo.
 
- O Contraste: aqui podemos estabelecer a manifestação do contraste de três maneiras:
1. a expectativa frustrada: esperamos que o desfecho seja de um jeito e surge algo absolutamente fora do esperado;
2. a mudança total repentina: o que promove o riso aqui é a rapidez de mudança no ponto de vista;
3. a ironia: revela uma intenção contrária ao que está sendo dito.
 
- O Gesto: todo o movimento que tem a intenção clara de provocar o riso. Destacamos aqui três modalidades:
1. a imitação: funciona quando conhecemos a pessoa\personagem que está sendo imitado;
2. o gesto de oposição: O corpo diz o contrário da fala;
3. a dança: a pouca habilidade em praticar os passos.
 
- O Figurino: quando ridículo, quando exagerado ou quando traveste o indivíduo.
 
- O Improviso: interferências da plateia, erros técnicos, esquecimento de texto são coisas que acontecem com muita frequência. É preciso e possível retirar o riso destes acontecimentos.
 
- O Quiproquó: os tipos mais comuns são: uma pessoa no lugar da outra; um indivíduo apresentado por uma característica oposta a ele; e um ser humano tomado por um animal.
 
 Riso na Palavra
 
Vamos agora especificar um pouco mais a questão do riso na palavra:
 
O Duplo Sentido: aqui damos uma atenção especial à palavra, valorizando-a e alertando para suas possibilidades semânticas. Falamos uma coisa, mas insinuamos outra.
 
O Obsceno: aqui podemos contar com duas formas: uma que é sutil, através do duplo sentido, que sugere mais do que fala e a outra é diretamente no uso do palavrão.
 
A Paródia: funcionam como resposta ou diálogo com textos amplamente conhecidos. Elas renovam o discurso conhecido, dão-lhe outro sentido, tirando o ouvinte de certo automatismo que envolve conceitos herdados de uma tradição.
 
A Metalinguagem: Utilizado para quebrar o realismo da cena, fala de elementos cênicos que normalmente não deixamos claro: ou referências ao autor da peça, ao público, aos próprios atores.
 
A Repetição em Demasia: Uma das funções do riso e mostrar que algo está fora de uma medida razoável.
 
Os Jogos de Palavra: Aqui temos os trocadilhos, destacando a sonoridade das palavras. Ou os jogos conceituais com elementos de sentidos contrários, seja como antíteses ou paradoxos.
 
Conclusão
Como podemos observar o riso não é um bicho de sete cabeças, claro que algumas pessoas terão mais talento que outras para provocar a gargalhada, mas mediante exercícios e a dedicação conseguiremos sacudir a plateia e espalhar um pouco mais de alegria na vida dos brasileiros.
 
“Este material foi escrito a partir do livro O Riso e Suas Técnicas de Egídio Bento Filho”
 O riso