Nos Nervos da Cena

Introdução
O olhar de Artaud é abrangente e complexo demais, portanto, elegi apenas alguns elementos pertinentes ao curso em andamento. Elementos estes que permitirão ao participante apropriar-se de alguns conceitos. Porém, caso queira aprofundar-se existe vasta bibliografia à disposição.
No final do século XIX o teatro sofre um abalo sísmico que viria para sempre mudar a concepção da realização cênica. Este abalo vem pela mente irrequieta e fervilhante de um dos mais expressivos artistas de todos os tempos: Antonin Artaud.
Não podemos falar de teatro contemporâneo se não tivermos claro que uma das bases mais sólidas para a criação do teatro que vemos hoje, tenha sido fundada a partir das proposições por ele feitas.
O teatro possui diversas camadas seja em sua feitura seja em sua fruição
 
e vamos aqui tentar pontuar algumas destas camadas.
 
 
Fruição pelos Sentidos
 
Comecemos pela relação com o espectador: Artaud queria atingir o público através dos sentidos, através de sua percepção sensorial. Assim, ao iniciar seu trabalho de construção cênica, você deve deixar sua imaginação perambular em como provocar o olfato, a audição, a visão, o tato e o paladar daqueles que irão assistir o seu trabalho. Mas não despreze o sexto sentido, aquele estado em que comungamos com os outros um saber que não vem pela via lógica.  
 
 
Pesquisa Cênica
 
“Uma linguagem no espaço e em movimento”
 
A tendência do teatro europeu, segundo Artaud, era reproduzir de forma superficial gestos e histórias que pouco revelavam a profundidade e vastidão do universo humano. Se queixava ainda que o teatro ocidental havia perdido seu tom místico e transcendental. E acreditava que um dos elementos escravizantes deste fazer teatral era a presença do texto cênico, através do qual girava toda a montagem. Assim, Artaud sugere que a cena seja pesquisada e criada a partir do próprio espaço cênico, ou seja, os atores e o diretor devem estar no palco e a partir de um tema criar a dramaturgia – inclusive e especialmente a corporal, buscando gestos e expressões fora do padrão habitual, costumeiro e pouco criativo. 
 
“... e porque não imaginar uma peça composta diretamente em cena, realizada em cena? ...”.
 
Não será mais o texto o condutor da experiência cênica, mas a própria relação com o espaço e as outras personagens. Vemos aqui uma mudança radical na forma de se realizar a construção cênica. Imaginemos, então, um tema e pulamos para a cena para realizar este tema. Buscando expressões únicas, vinda de um lugar interno ainda não explorado.  O teatro é uma linguagem visual e é com os seus elementos constituintes que a cena deve eclodir.
Podemos imaginar, por exemplo, um feixe de luz e, a partir deste feixe, estabelecermos o clima, o tema, o contexto a ser apresentado.  Ou podemos pensar em tecidos e nossa relação com estes tecidos é que estabelecerão a poética da linguagem teatral.
 
 
 
 
Ator: Atleta do Coração
Desejava que o ator acessasse em sua musculatura a escritura dos diversos estados de alma.
 
“É preciso admitir, no ator, uma espécie de musculatura afetiva que corresponde à localização física dos sentimentos”.
 
 
Assim começa Artaud a falar de uma pesquisa que revolucionou o trabalho do ator na cena. Claro que a França já havia visto a expressão corporal introduzida no teatro por François Delsarte, entre outros. Mas talvez e, justamente por isso, o movimento, o gesto e a expressão dos atores tenham atingido um código cênico imutável e mecânico.
Artaud surge justamente para recuperar a espontaneidade no corpo do ator, em matizes particulares, únicas e nunca vistas.
Os músculos se comportam de maneira específica quando estamos sentindo as emoções e saber disso, ir em busca do princípio de cada estado é um trabalho a ser realizado por aquele que quer estar em cena.
Por isso Artaud vai falar da materialidade dos sentimentos, ou seja, que a cólera, o êxtase, a alegria, a frustração são representáveis pelo corpo.
 
Um ator deve ter como meta treinar-se e encontrar em si, em seus músculos, a materialização formal dos sentimentos. Pois pertence ao ator, mais do que a muitos profissionais, a esfera afetiva. 
 
 
Respiração
Mas é na respiração que o seu trabalho encontrará apoio e respostas, pois para cada sentimento há uma respiração específica. E Artaud se valerá da Cabala para pensar nesta respiração.
Mas o que é a respiração? A entrada de ar no corpo, sua retenção e sua saída. Inspirar rápido, segurar o ar por muito tempo expirar lentamente, ou qualquer variante destes três mecanismos são capazes de nos levar a estados de almas diversos.
Respiração, emoção, emissão vocal e movimentos corporais andam juntos e são os meios pelos quais o ator poderá criar sua expressão e comunicação cênicas.
O que ele solicita é de uma complexidade imensa, quer que o subterrâneo material da alma venha contar os seus segredos no palco. Poderíamos compreender isso como uma evocação ritualística: “alcançar as paixões através de suas forças”.
 
Acredita que ao atingirmos tal nível de interpretação conseguiremos fazer com que o público se identifique e acompanhe a cena respiração com respiração. 
 
 Ritual
Outra proposição peculiar era a ritualização do espetáculo, a fim de ligar o homem às suas pulsações mais primitivas. Cansado do teatro psicológico (é bom lembrar que Freud é seu contemporâneo e que a psicanálise virou modismo neste momento), Artaud anseia que “o drama não evolua entre sentimentos, mas entre estados de espíritos”, conforme vira no teatro balinês que tanto o encantou.
Ele afirma que não deve ser objeto do teatro as questões meramente pessoais ou sociais, para ele o objeto deve ser “algo superior e mais secreto”.  Ele fala de perigo e encantamento, de uma poesia que subverta o sentido habitual de tudo aquilo que para nós está na ordem do compreensível, do conhecido.
“Colocar em questão todas as relações entre os objetos e entre as formas e suas significações”
 
  Queria uma cena em que os símbolos fossem sobrepostos e que a compreensão ou experimentação do evento cênico se desse em diversos níveis, mas especialmente no espiritual, ou, pelo menos, não nos níveis psicológico e social.
Talvez aqui possamos extrair que a escolha do tema e o tratamento a ele dado sejam as formas pelas quais poderemos tornar o (retomar) o sentido sagrado da cena.
 
 
Conclusão
A criação cênica pelo viés artaudiano exige uma dedicação extrema. O participante deverá pesquisar meios e formas para expressar a peça. Esta pesquisa deverá atingir o espectador inusitadamente, provocando nele uma mudança substancial, atingindo sua essência, revelando dobras de sua alma e da própria questão cósmica da vida.
Portanto, ao pensar em fazer um trabalho nesta estética, volte-se antes de tudo para dentro de si, leia livros sobre o ser espiritual (não me refiro à religioso), busque quadros de artistas plásticos. Faça com que sua cena possa ser lida em muitas camadas!!!
Antonin Artaud - Imagem em aquarela